quinta-feira, janeiro 11, 2007

a louca da casa

"A imaginação é a louca da casa". É nessa frase de Santa Teresa de Jesus, que a brilhante escritora Rosa Monteiro se inspirou para criar o livro "A louca da casa". É um dos raros livros que me fazem querer escrever desesperadamente, querer anotar as idéias, os conceitos, as histórias, as referências... o livro é autobiográfico e funciona como um ensaio com as idéias da autora sobre, entre outras coisas, o ofício de escrever. Segue um trecho do capítulo final (não, isso não compromete a leitura já que a obra pode ser lida aleatoriamente). Uma história simples, mas que me fez pensar por um bom tempo...

"O romancista José Manuel Fardo me contou uma história que por sua vez lhe foi contada por minha admirada Cristiana Fernández Cubas (...) algo que havia acontecido com a tia dela (...) O caso é que havia uma senhora, que vamos chamar por exemplo de Julia, que morava em frente um convento de freitas enclausuradas; o apartamento, num terceiro andar, tinha uma varanda que dava para o convento, uma sólida construção do século XVII. Certo dia Julia experimentou as rosquinhas que as freiras faziam e gostou tanto que se habituou a comprar uma caixinha todos os domingos. A assiduidade de suas visitas levou-a a travar uma certa amizade com a Irmã Porteira, que ela naturalmente nunca via, mas com quem falava através da porta giratória de madeira. Conhecendo os rigores da clausura, certo dia Julia contou à Irmã que morava bem ali em frente, no terceiro andar, naquela varanda que dava para a fachada; e que não vacilasse em pedir sua ajuda se precisasse de qualquer coisa no mundo externo, como levar uma carta ou um embrulho, ou fazer algum outro favor. A freira agradeceu e as coisas ficaram assim. Passou um ano, passaram três anos, passaram trinta anos. Certo dia, Julia estava sozinha em casa quando bateram na porta. Abriu e se deparou com uma freira pequena e anciã, muito limpa e enrugada. Sou a Irmã Porteira, disse a mulher com voz reconhecível e familiar; anos atrás você me ofereceu sua ajuda se precisasse de alguma coisa de fora, e agora eu preciso. Pois não, respondeu Julia, diga. Queria lhe pedir, explicou a freira, que me deixasse debruçar-me na sua varanda. Estranhando, Julia fez a anciã entrar, guiou-a pelo corredor até a sala e foi para a varanda com ela. Lá ficaram as duas, imóveis caladas, observando o convento durante um bom tempo. Afinal, a freira disse: "É muito bonito, não é?". E Júlia respondeu que sim. Dito isto, a Irmã Porteira regressou para seu convento para nunca mais sair. "


Rosa Monteiro arrebata a história e conclui o livro dizendo: "Cristina Fernándes Cubas contava essa belíssima história como exemplo da maior viagem que um ser humano pode realizar. Mas para mim é algo mais, é o símbolo perfeito do que significa a narrativa. Escrever romances implica atrever-se a completar o monumental percurso que tira você de si mesmo e permite se ver no convento, no mundo no todo. E depois de fazer esse esforço supremo de entendimento, depois de quase tocar por um instante na visão que completa e que fulmina, regressamos mancando para a nossa cela, para o encerro da nossa estreita individualidade, e tentamos nos resignar a morrer."



Amigos blogueiros, leiam. Vale a pena.

5 comentários:

avoada disse...

Me faltam palavras...[:)]
(sensibilidade*)

Salvaterra disse...

gostei, vou ler, assim que atravessar os sertões.

Rosana disse...

Ai Rô, não tô podendo ler nada e já fico refletindo =S

Achei lindo, mas não estou legal...

Tatinha disse...

Eu juro que vou ler!!!!

mas não agora xuxu..mais tarde( deixando um comentario só pra vc não dizer que eu não passo aqui, mas eu passo e deixo o comentario pra deixar isso registrado, porém, mais tarde eu vou comentar de novo pq aí sim eu terei lido o texto gigante e que vale a pena:)
bjsss

Chapolim disse...

A interação com freiras que mais me agrada é a de Rogério Skylab em sua obra-prima musical: "O Convento das Carmelitas"